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Jacopo Crivelli Visconti - O circo pegou fogo...
1/12/2011

Sem dúvida, há quem ache que as coisas nunca estiveram tão bem, que estamos seguindo o caminho certo, que `nunca antes, na história deste país...`, ou até deste planeta, se viram tanta riqueza e tanta felicidade e que, corrigidas as últimas falhas e solucionados os últimos problemas, rumaremos finalmente para a paz, o progresso, a ordem e a abundância... Mas a verdade é que a maioria de nós gosta de lembrar dos velhos tempos, de quando as crianças podiam brincar na rua, o trânsito era um fenômeno quase desconhecido, e a vida era mais cheia de poesia e ingenuidade (ou ao menos assim nos parece hoje). As coisas, de forma geral, duravam mais: os presentes ganhos no Natal ainda pareciam novosem maio, era normal usar as mesmas roupas ao longo de anos, ninguémtrocava de carro a cada estação, e dava para aprender os nomes dos jogadores do seu time de futebol: de um ano para o outro não mudava quase ninguém. A mesma tendência à idealização do passado que nos faz lembrar de poesia e ingenuidade onde talvez não houvessem, sugere também que esse `ritmo` diferente não tinha apenas a ver com uma escassez de meios: era, muito antes disso, indício de uma relação diferente com o mundo, uma relação que não seria errado definir mais ética. Agora estamos todos conectados, redes (antis)sociais nos vigiam por todos os lados, mesmo parados no trânsito temos como verificar que as crianças não estejam na rua, e a lógica do `descartável` predomina: tudo tem que ser `em tempo real`, o interesse de um assuntoqualquer depende apenas da sua novidade, em dez minutos tudo é obsoleto. Vários jogos de futebol passam a cada dia,ao vivo, na televisão, e todos conhecemos os nomes dos mesmos jogadores, às vezes sem nem saber para que time jogam, hoje (antes do jogo de amanhã, é claro, tudo poderá ter mudado).

Considerando que, desde o início da sua carreira, Leda Catunda expõe as idiossincrasias e as evoluções do imaginário popular, a decisão recente de se voltar para o universo esportivo é perfeitamente coerente e compreensível, quase lógica. Os logotipos, as imagens, as cores, os símbolos, os números: todo o repertório visual do esporte aparece nessas obras, cada elemento competindo com os outros, tentando sobrepor-se aos que o rodeiam, até preencher cada centímetro do espaço à disposição. Quem acompanha o trabalho da artista há algum tempo sabe que essa necessidade de ocupar a totalidade da tela constitui um dos traços característicos da iconografia da artista, marcada, poder-se-ia dizer, por um profundo horror vacu: nada pode ficar vazio em suas criações, e o branco, equivalente cromático do vazio, é banido. Pode ser interessante lembrar que numa das suas primeiras séries de pinturas, coletivamente intituladas Vedações, elementos da estampa dos tecidos empregados eram destacados cobrindo a quase totalidade do resto do campo da pintura com uma camada uniforme de tinta: ou seja, ao precisar de um vazio para destacar alguns elementos, a artista renunciava a pintar esses elementos, deixando-os a flutuar num vazio `real`, mas criava um `falso` vazio sobre um fundo pré-existente, quase afirmando que era exatamente esse fundo a permitir que o espaço vazio se sustentasse. Por outro lado, é evidente que a maneira como os elementos parecem brotar um do outro nessas pinturas é perfeitamente coerente com o hábito, cada vez mais generalizado em âmbito esportivo, de recobrir de logotipos de patrocinadores cada centímetro de camisetas, carrocerias, bonés, raquetes e qualquer outra superfície disponível. E mais, é coerente com a maneira como o mundo, conforme dizia-se antes, torna-se a cada dia mais cheio, mais transbordante de imagens, estímulos, notícias, coisas. Essa correspondência não deve ser considerada casual: o fato das obras da Leda Catunda terem sido construídas desde o início por sobreposição, seja de camadas de tinta ou, fisicamente, dos próprios materiais, denota uma profunda sintonia com o seu tempo. De certa maneira seria correto dizer que, desde o começo dos anos 1980, quando a artista iniciou a sua produção, suas pinturas vêm apontando para onde está indo o mundo, de forma análoga ao que fazia, por exemplo, a célebre colagem de Richard Hamilton, O que exatamente torna as casas de hoje tão diferentes, tão fascinantes? (1956), considerada o marco zero da arte pop. Ambivalente como a maioria da autêntica arte pop, que oscila entre um genuíno fascínio e a crítica mais ácida à sociedade que retrata e da qual é consciente de ser filha, a colagem de Hamilton deve ser considerada uma referência importante para a obra de Leda Catunda, que mantém uma ambivalência análoga em relação ao seu sujeito, e é construída quase sempre como uma colagem, mesmo quando o ato de colar um elemento no outro não é realizado fisicamente, mas com o pincel.

Pode valer a pena aprofundar a reflexão sobre o caráter ambivalente, e até enigmático da produção da Leda Catunda, e mais especificamente da série dos esportes. A própria artista confessa não ter uma posição unívoca em relação à progressiva contaminação e miscigenação da iconografia esportiva, que vem renunciando à pureza ideal da modernidade, que poderíamos exemplificar com a imagem de um número (de preferência escrito numa serigrafia elementar, sem serifa) sobre um fundo monocromático, em favor de uma mistura carnavalesca em que os números convivem com patrocínios, escritas e cores os mais diversos e estridentes. No âmbito da discussão mais ampla sobre os critérios e a evolução do gosto que, como dizia-se, permeia a pintura de Leda Catunda desde seus primórdios, parece lícito atribuir à série dos esportes um valor metonímico: ao focar esse universo, a artista convidao observador a olhar para uma transformação geral, que diz respeito à sociedade como um todo. Mas a artista, como se dizia, não toma partido, limita-se a observar o processo, olha o circo pegar fogo, e enquanto isso se apropria de alguns casos extremos, sem revelar se os considera as aberrações mais gritantes, ou os momentos mais sublimes. É desse repertório ontologicamente idiossincrático que surge o fascínio dessas obras, da contradição quase palpável entre a iconografia colorida e, se não bela num sentido convencional, frequentemente atraente e até aconchegante, e o repertório iconográfico, e até físico, ao qual atinge para a construção do seu imaginário. Toalhas, lençóis, casacos, camisetas, tecidos estampados, até colchões têm confluído, ao longo desses anos, em suas pinturas, sempre trabalhados de maneira a deixar à vista as características do material, e principalmente a fatura e o sujeito das estampas e decorações que os revestiam. E essas estampas e decorações, praticamente em sua totalidade, provinham do universo popular, feito de personagens de Walt Disney, fotografias de paisagens estereotipadas impressas toscamente, animais estilizados e em poses insólitas ou até grotescas, a compor um pequeno compendio do que, de acordo comuma visão talvez elitista, poder-se-ia considerar uma iconografia barata, esteticamente pobre e sem nenhum conteúdo. Apesar dessa interpretação, como é sabido, a obra de Leda Catunda goza de um inegável sucesso de público, resta definir se isso acontece porque retrata de maneira essencialmente fiel os gostos atuais, ou pelo prazer físico que as suas superfícies macias sugerem, ou talvez, mais simplesmente, por serem belos, da mesma forma como é bela a colagem de Richard Hamilton citada acima.

Complementando essas considerações, é importante esclarecer, se é que ainda não ficou suficientemente claro, que a beleza, pelo menos se entendermos esse termo no sentido convencional, não está entre as características que a artista busca para a sua pintura. O inegável apelo das suas obras é antes tátil, orgânico, do que estético: curiosamente, em se tratando de pinturas, o observador sente o desejo, quase a necessidade em alguns casos, de tocar, apalpar as superfícies, comprovar com a mão o que o olho sugere, mas não se atreve a garantir, isto é, a maciez dessas obras. E de fato, em sua tese de doutorado, a artista recorria à expressão `poética da maciez` para analisar as obras produzidas a partir do começo dos anos 1990, isto é, pinturas que, mesmo mantendo-se ancoradas à parede, esparramavam-se pelo chão, ou avultavam-se no espaço, em formas recorrentes que aludiam, como explicitado pelos títulos, a `barrigas`, `línguas`, `insetos`, etc... Trata-se, sem dúvidas, de um dos períodos criativos mais férteis e também mais conhecidos da artista, e não cabe estender-se, aqui, numa análise de suas características, mas é importante lembrar dessa produção porque agora, após quase vinte anos, a série dos esportes vem apontando para um caminho novo, menos propenso à tridimensionalidade. Não se trata, naturalmente, de uma mudança radical,considerando que vários trabalhos ainda saem da parede, mesmo que de maneira mais contida, e de qualquer maneira, na obra e no pensamento da Leda Catunda as coisas sempre se misturam e se fundem, e aadesão à tridimensionalidade nunca teve um caráter militante ou exclusivo. É, contudo, importante ressaltar essa característica da série atual, porque a prevalência do bidimensional pode decorrer da `força` do tema escolhido, como se seu valor iconológico fosse suficiente a justificar o predomínio da visualidade, sem necessidade de irromper no espaço para criar um impacto e transmitir uma mensagem. E essa força da visualidade do esporte deriva em parte da empatia imediata que cria no público, pelo menos na parcelaque reconhece os símbolos e as cores que ama ou odeia, mas também, ou principalmente, do caráter metonímico mencionado anteriormente, que faz com que essas obras se tornem extremamente esclarecedoras de uma certa tendência na visualidade e até, se quisermos, na sociedade contemporâneas, em que tudo parece estar à venda: as sentenças nos tribunais, cada milímetro quadrado do capacete do campeão de motocicleta Valentino Rossi, os votos no senado, os diálogos da novela das oito...

O mais inexplicável nesse processo todo é que, num anseio irrefreável de identificação e emulação, mesmo quem não ganha nada com isso (aliás, a rigor, paga) sente-se protegido se puder vestir uma camiseta com as mesmas cores do seu time, o mesmo número do seu ídolo, e também, por que não?, os mesmos patrocinadores. E é aqui, no desejo visceral do fã de se apropriar de todo e qualquer símbolo, que se revela a alma da emulação, a superficialidade da paixão e também, em alguns casos, seu caráter profundamente enigmático, como quando um simples número, retirado das costas do ídolo, reaparece,já completamente esvaziado de significado e função, nas costas de um jovem anônimo, silencioso e perplexo, num ônibus que ruma para a periferia, ou, para citar um caso real noticiado nos dias em que esse texto estava sendo pensado e escrito, nas de um ladrão que atacava padarias e supermercados vestindo sempre a camisa de Cristiano Ronaldo, o que facilitou o seu reconhecimento e, finalmente, a sua captura. A vida imita a arte, e nos revela sem sombra de dúvida como o que Leda Catunda, à sua maneira personalíssima e inconfundível, nos apresenta, é um pequeno teatro do absurdo, uma reprodução fiel, e que contudo beira o grotesco, dos abusos e das loucuras da sociedade do espetáculo.

Jacopo Crivelli Visconti

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