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Lucas Arruda - Escotilhas temporais
1/1/2015

Para compreender uma situação, para nos localizarmos, muitas vezes precisamos nos lembrar. Presos como estamos ao presente, precisamos frequentemente nos lembrar, para entender ou nos certificarmos sobre como viemos parar ali, onde de fato nos encontramos agora. Onde e quando, em que momento estamos? A lógica traiçoeira nem sempre colabora para uma resposta imediata. Uma vez que a mente parece constantemente flutuar entre onde estamos e o que está acontecendo no tempo presente, e algum pensamento sobre o lugar onde estávamos antes, algum assunto não concluído, ou ainda, algum sentimento de urgência, ansioso, sobre para onde iremos logo em seguida. Assim, ainda que os fatos ocorram sequencialmente, uma coisa vindo após a outra, a dimensão temporal parece ganhar ocasionalmente um aspecto ilógico e gelatinoso. Isso porque a mente acaba ficando presa a momentos que foram vividos de forma mais intensa, e também a outros que nem aconteceram ainda, num sentimento difícil de descrever, como se fosse uma espécie de saudade do futuro. Somos por assim dizer, reféns das sensações, das boas e das ruins, nos movemos para frente e pra traz no tempo, um tempo particular de cada um organizado por sensações, num constante flutuar pelo presente.

Dotadas de uma ambiência particular e irreal, as pinturas de Lucas Arruda rementem a lembranças. São oferecidas ao observador como pequenas janelas para o olhar, cumprindo de maneira natural o papel histórico do objeto artístico bidimensional de disponibilizar ilusão de espaço, profundidade. A figuração concentrada é elaborada através de composições organizadas e acessíveis. As imagens variam entre paisagens e a abstração do lugar vazio. E em pinturas como as de céu e mar, frequentemente pode se perceber a representação relegada em favor do bloco de cor. São realizadas tendo como base um universo cromático próprio e delicado. Assim, quase abstratas, essas telas parecem propagar uma luz própria que ilumina brevemente o espaço a seu redor.

A estranheza da escala é o índice inicial para detectar a atitude renovada que afasta a ação do artista do provável. A escala intimista exige o deslocamento do sujeito, sua aproximação, contato. Horizontes abreviados, por vezes pintados em telas verticais e quadradas, são uma contradição em termos e negam a fruição lisérgica tal qual oferecida nas históricas pinturas atmosféricas de artistas como Claude Lorain no século XVII, ou Turner na passagem do século XVIII para o XIX. Estando estes mestres, cada qual em seu momento, mais claramente conectados a uma ideia de atmosfera sideral, como a do céu que nos protege.

Não se pode deixar de notar o quanto esse lugar vazio de caráter utópico, espaço livre e desocupado, representado nas pinturas, contrasta com o cenário urbano no qual vivem hoje a grande maioria das pessoas. Amontoados nas cidades, enfrentando a demanda de um cotidiano acelerado, nos encontramos constantemente cercados por um mundo nervoso e visualmente saturado. Há pouca chance para o vazio no fim do capitalismo. Tanto na esfera do real, lugar povoado por ruídos, imagens e objetos os mais diversos, quanto na do virtual, rápido, aflito e retransfigurado a cada clicada. Dessa perspectiva, a imagem desse espaço vazio, fictício, do espaço livre presente nas telas de Lucas Arruda, pode ser lida como uma metáfora da nossa busca inconsciente por um mundo idealizado, aprimorado. Enxerga-se no equilíbrio da justaposição de cores, bem como na breve claridade que emana do quadro, onde toda a luz é sutilmente coordenada pela cor, essa imagem que corresponde a das lembranças idealizadas. A imagem harmônica de uma sensação gerada por uma memória aperfeiçoada. Amplificada e sentimentalizada, o tipo de lembrança que reelaboramos em pensamentos repetitivos, por vezes involuntários. Quando, sem chance de escapar de certas memórias que insistem em retornar, entramos num curioso processo de aperfeiçoamento e vamos melhorando a lembrança, na mesma medida em que vamos nos lembrando daquilo que gostamos e elegemos recordar. Ocasionalmente, dentro desse processo mental de repetição e alcançando já um estado limite de torpor, acontece por vezes o esgarçamento dos vínculos com o real, que algum dia tenha gerado aquela memória. O que resta é apenas uma imagem difusa, uma sensação.

A escala e a imagem concentrada propõem ainda uma inusitada transformação do lugar do observador que se pergunta `onde estou, onde entrei?`. Como marcadores temporais, as pinturas de Lucas Arruda reportam momentos. Inicialmente confuso sobre exterior e interior, o sujeito subitamente se descobre dentro. De onde? Singular arquitetura, não moderna, de pequenas janelas. Amplidão e despojamento excluídos, o espaço expositivo povoado de janelinhas lateja e deforma, à medida em que o olhar entra e sai dos diversos mini-mundos apresentados.

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Penny sai para passear no novo planeta onde a nave pilotada por seu pai, o Professor Robinson, da série americana para TV `Perdidos no espaço`, acaba de pousar. O tempo está bom e o planeta classe `M` oferece um bom nível de oxigênio para respirar. Subitamente no meio do nada, ela se defronta com um estranho espelho, grande e imponente com uma moldura Art-Nouveau. Numa referência clara à `Alice através do espelho` de Lewis Carroll, Penny entra no espelho e lá encontra com o `gênio do espelho` que então nos apresenta a singularidade de sua dimensão. De dentro da caverna amorfa é possível alcançar visualmente qualquer parte do mundo, qualquer lugar, onde haja também um espelho. Múltiplas pequenas janelas mostram desde Judy, a irmã loira se penteando na nave, a lugares na Terra e em diversos outros planetas.

Assim como na visão dos diversos espelhos na caverna, representando portais interdimensionais, as pinturas operam como pequenos recortes de espaço e tempo, imagens fantásticas dessas que guardamos na cabeça e vamos recolorindo à medida em que o tempo passa. Dessa maneira, sendo capazes de transformar o vínculo com o real para poder recortar e guardar tão somente o que interessa. A atração da visão do mundo ideal e a vertigem do movimento de entrada e saída do olhar de cada quadro, de cada atmosfera, remete à vertigem da queda de Alice. Atrás do olho, segue o espírito, mas como o corpo não pode ser transportado, retornamos abruptamente para a sala outra vez, e assim podemos voltar pra dentro da imagem de novo e perfazer tal movimento infinitamente...

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