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Tadeu Chiarelli - Os planos de Leda Catunda
1/1/2009

Uma das mais importantes artistas brasileiras, Leda Catunda sempre se destacou por produzir trabalhos que buscam esgarçar ao máximo o conceito moderno de pintura(1).

Já nas `vedações` de início de carreira, Leda demonstrava sua resolução de não trabalhar com a tela convencional. Para realiza-las, a artista costurava alguns módulos de tecidos estampados com imagens de história em quadrinhos brasileiras ou internacionais. Pronta essa união de módulos – uma `tela` sem chassis –, Leda vedava todas as estampas com tinta acrílica, deixando visíveis apenas alguns pedaços das mesmas. Aqueles planos, meio moles, meio encorpados pela tinta acrílica, desafiavam a “boa pintura” convencional, alternando ritmos de cores por entre as vedações monocromáticas. Mesmo nas pinturas onde Leda desenvolvia um forte pendor narrativo, em busca do arquetípico, era patente seu desconforto em relação à possibilidade de uma pintura apenas planar, mantenedora da tradição.

Na verdade, Leda desenvolveu essa poética porque soube sintetizar – ainda nos anos 80 –, duas grandes influências aparentemente antagônicas e excludentes: por um lado, todo o legado de uma crítica à pintura moderna, herdado de seus professores; por outro, a avalanche de informações sobre o fenômeno internacional da “volta à pintura”, que marcou enormemente a sua geração.

Sintetizando esses dois influxos, a artista questionou de fato a pintura moderna, realizando trabalhos onde os limites do plano pictórico sempre foram problematizados, quer pelo uso de materiais inusitados (veludos, plásticos, pelúcias, etc), quer pelas superfícies volumosas e/ou vazadas das suas pinturas. E foi devido, justamente, a esse intenso questionamento, empreendido nos últimos vinte anos, que Leda Catunda foi constituindo uma das produções mais instigantes da cena artística brasileira contemporânea.

Os trabalhos que apresenta nesta exposição são o resultado do processo de amadurecimento que a sua produção vem passando mais recentemente. Neles é possível notar praticamente todas as questões que, nessas últimas décadas, Leda trouxe para a discussão do plano pictórico, só que agora solucionadas de maneira ainda mais precisa, devido à sua concentração maior na resolução dos aspectos formais de seu trabalho.

Os comentários sobre as peças aqui apresentadas poderiam começar por Padres. Segundo Leda, esse título refere-se a uma pintura do primeiro renascimento italiano, que ela teria visto num museu fora do Brasil. Realizada no período em que, na Itália, estruturavam os artifícios para a representação ilusionista da realidade tridimensional, aquela pintura teria chamado a atenção da artista por seu caráter ambíguo, ainda a meio caminho entre a plena ilusão de tridimensionalidade, e a afirmação inconsciente do caráter plano da pintura... Para aprofundar tal questão, Leda apropriou-se de um grupo de figuras ali retratadas, recriando-as por meio de quatorze módulos de veludo, costurados entre si. As ligações entre os módulos, por sua vez, foram sublinhadas com tinta acrílica. Padres, à sua maneira, repete a mesma ambigüidade vista pela artista na pintura italiana... Embora permaneça atada ao plano da parede, o fato daquele agrupamento de módulos estar recortado (desmontando, portanto, o caráter ortogonal da pintura convencional) dá à forma geral da peça uma agilidade e um ritmo que fazem com que aquelas quatorze `figuras` pareçam querer saltar para o espaço real...

Se em Padres o plano foi apenas – e elegantemente – tensionado, em Dez Camadas, Mosca Preta e Oito Gotas com Pedras, nota-se como a artista, pela sucessão de planos de tecidos que vai incorporando aos trabalhos, tende a retirá-los da subserviência total ao plano da parede. Eles parecem prestes dela se desprenderem para começarem a habitar a realidade tridimensional...

Entre a sutileza de Padres e a radicalidade das outras peças citadas, situam-se Seis Gotas com Pedras e Praia das Cigarras. Nessas, o relevo moderado da sobreposição de planos ganha um ritmo particular, pela inclusão das gotas, formadas nos locais onde um plano penetra outro. Interessante ressaltar que, se em Seis Gotas, em dois dos planos, Leda se apropria de uma toalha com estampas de pedras (a mesma de Oito Gotas), em Praia das Cigarras a artista, pela primeira vez, cria uma obra utilizando-se de fotografia de sua própria autoria, estampada no tecido onde pinta. Se todos os trabalhos citados podem ser entendidos como espécies de “alto-relevos”, Cinco Partes II e Cinco Partes III, pelo contrário, seriam “baixos relevos” muito particulares. Neles, a sobreposição de planos de vários tecidos, colocam em evidência a parede que os sustentam, fazendo com que sua cor também participe da configuração cromática geral dos trabalhos.

Flagrada nesta mostra no primeiro momento de síntese de sua trajetória, Leda demonstra que sua obra não está, e nunca estará vinculada apenas à arte brasileira dos anos 80, período em que surgiu. Essas suas oito pinturas moles mostram que a artista vem sedimentando sua trajetória, rumo a constituição de uma obra densa, preocupada com as questões formais que a sustentam, e sem perder, jamais, o humor e a sensualidade, que sempre foram características de seu trabalho.

Tadeu Chiarelli

(1) aquele voltado para o respeito e manutenção do caráter bidimensional do campo plástico, preenchido por áreas de cor.

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