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Jacopo Crivelli Visconti - Da praça para cá
1/1/2015

No ateliê de Leda Catunda, em São Paulo, obras ainda não terminadas, esboços, recortes e retalhos que poderão (ou não) confluir em alguma pintura ou colagem sobre papel, convivem lado a lado com obras produzidas há dez, vinte e até trinta anos. Ao longo desse período, como não poderia deixar de ser, o seu trabalho evoluiu incessantemente, ora mais pictórico, figurativo e narrativo, ora mais esquemático, repetitivo, quase abstrato; ora interessado essencialmente em explorar as variações sobre o tema fundamental, na concepção da artista, da poética da maciez, ora voltando-se para análises quase sociológicas da evolução do gosto do cidadão comum. Mas, para além das mudanças e rupturas mais ou menos claras entre uma fase e outra, existe uma coerência bastante evidente no trabalho da artista, que permite ler a sua obra como uma sequência de exercícios distintos, porém complementares; e que faz com que a justaposição de obras de momentos distintos em seu ateliê, apesar de casual, forneça uma chave de leitura extremamente fértil para a compreensão do trabalho.

É a partir dessas considerações que foi pensada a seleção de obras que integram agora a exposição no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, e que inclui obras produzidas entre 1985 e 2015. Esta pode ser considerada a mais abrangente retrospectiva do seu trabalho desde a exposição apresentada na Estação Pinacoteca, em São Paulo, em 2009. O trabalho mais antigo entre os aqui expostos, A praça (1985), foi produzido no calor do sucesso arrebatador que naqueles anos Leda Catunda experimentava juntamente com alguns de seus ex-colegas da Fundação Armando Álvares Penteado, como Sérgio Romagnolo e Leonilson, entre outros. Eram anos, cabe lembrar, de um renovado interesse pela pintura no mundo todo, confirmado por aqui com exposições como a célebre Como vai você, Geração ’80? (Parque Lage, Rio de Janeiro, 1984), ou a chamada Bienal da "Grande Tela" (XVIII Bienal de São Paulo, 1985), e pelo repentino surgimento do mercado entre os agentes do cenário artístico nacional. É provável que, nesse contexto, não fosse ainda possível entender plenamente a pesquisa de Leda Catunda sobre o significado simbólico de qualquer decisão ou opção em matéria de gosto, já que até o final dos anos 1980 eram muitos os pintores, no Brasil, que se apropriavam de um imaginário popular banal e massificado. Mas se esse é o âmbito no qual começava a se delinear a carreira da artista, ao longo dos anos as suas preocupações tornaram-se mais claras, mais reconhecíveis e compreensíveis, principalmente, como dizíamos antes, quando se tem a oportunidade de comparar obras de épocas diferentes. Nesse sentido, A praça representa aqui um ponto inicial, a partir do qual as coisas foram se tornando mais nítidas, os elementos e as formas recorrentes adquiriram o peso que só os anos podem conferir, e o trabalho como um todo ganhou em peso e volume.

Desde o início da sua carreira, Leda Catunda expõe as idiossincrasias e as evoluções do imaginário popular, seja através de estampas, iconografias, personagens famosos e elementos decorativos, seja, como nas séries mais recentes, utilizando logotipos, imagens, cores, símbolos e números apropriados do repertório visual do esporte. Até a maneira como a sua pintura obedece ao impulso de ocupar a totalidade da tela poderia ser reconduzida ao horror vacui que, desde a época do barroco, constitui um dos traços característicos do imaginário popular brasileiro: nada pode ficar vazio em suas telas, e o branco, equivalente cromático do vazio, é praticamente banido. Evidentemente, a maneira como os elementos parecem brotar um do outro nas pinturas recentes é coerente com o hábito, cada vez mais generalizado em âmbito esportivo, de recobrir de logotipos de patrocinadores cada centímetro de camisetas, carrocerias, bonés, raquetes e qualquer outra superfície disponível. Mas, mais do que isso, é coerente também com a maneira como o mundo torna-se a cada dia mais cheio, mais transbordante de imagens, estímulos, notícias, coisas. Essa correspondência não deve ser considerada casual: o fato de as obras de Leda Catunda terem sido construídas desde o início por acumulação e sobreposição, seja de camadas de tinta ou, fisicamente, dos próprios materiais, denota uma profunda sintonia com o seu tempo.

A exposição no CCBN amplifica esse modus operandi ao aplicá-lo ao próprio partido museográfico. As obras não serão dispostas seguindo os critérios convencionais, isto é, numa altura considerada ideal (o centro do quadro a 150 cm do chão), com distância suficiente umas das outras, e estabelecendo-se relações entre elas ou um critério geral compreensível (por exemplo, respeitando a ordem cronológica em que foram pintadas). Obedecer a esses parâmetros, em sua maioria codificados no âmbito da consolidação das teorias modernistas, seria de certa maneira contradizer o cerne da pesquisa da artista, sua busca por valores mais instintivos e contaminados, imersos nas contradições e nas idiossincrasias do mundo real. De acordo com essa visão, o único jeito de dispor as obras de Leda Catunda é em alturas diferentes, em alguns casos aproximando-as até quase tocarem-se, permitindo que flutuem no mais alto das paredes, ou então que se esparramem pelo chão, e ainda deixando que apareçam mais de uma vez, idênticas (no caso das gravuras) ou quase (se pensarmos nas formas utilizadas com maior frequência, como a "gota" e a "língua"). Ao embaralhar e multiplicar as visões, a instalação replica em escala maior o procedimento favorito da artista, que recorre frequentemente à repetição de formas, figuras ou elementos decorativos, como demonstram até os títulos de alguns dos trabalhos incluídos na exposição (Dois prédios, 1990; Duas bocas, 1994; Cinco línguas, 1995; Seis círculos, 2004; O nove e o novinho, 2012) . Além ou até antes disso, naturalmente, a montagem busca também reproduzir a instalação quase aleatória do ateliê da artista, amplificando as ressonâncias e analogias entre trabalhos produzidos em épocas distintas. A aparente cacofonia dessas justaposições é, como dizia-se antes, sintonizada com o seu tempo, aponta para o lugar aonde está indo o mundo, de forma análoga ao que fazia a célebre colagem de Richard Hamilton, O que exatamente torna as casas de hoje tão diferentes, tão fascinantes? (1956), considerada o marco zero da arte pop. E a obra de Leda Catunda é, de fato, ambivalente como a maioria da autêntica arte pop, suspensa entre um genuíno fascínio e a crítica mais ácida à sociedade que retrata e da qual é consciente de ser filha.

Jacopo Crivelli Visconti

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