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Verdades e mentiras
1/7/2014

O desenho é a forma de criação de imagem mais direta que há, acontecendo do pensamento pra mão, da mão pro papel e pronto, no mesmo instante já está então colocado o que pode ser um registro imediato, expressão, representação, invenção.

Desenhava bastante, diariamente, e tal como fazia nas pinturas, nesses desenhos registrava o que estava vivendo, pensando e principalmente sentindo. No entanto, essas duas ações de desenhar e de pintar, muito embora caminhassem paralelamente como sendo registros poéticos de seu estado pessoal momentâneo, eram organizadas de maneiras diferentes. Intensidades e tensões variavam de uma pra a outra. Os desenhos eram feitos geralmente, numa mesinha que ficava no quarto, sobre a qual havia sempre blocos e cadernos de vários tamanhos. Usava lápis de cor primeiro, depois passou a usar uma canetinha preta. Pras pinturas era necessário mais energia, o ateliê ficava na garagem e era um pouco frio. As pinturas por serem compostas por mais elementos implicavam riscos, um numero maior de decisões e mais tempo de organização. Os desenhos eram feitos no tempo que sobrava, num tempinho que surgia em alguma hora do dia ou de noite e muitas vezes nas viagens. Era muito raro que fizesse um só, normalmente fazia um conjuntinho de 3 a 5 desenhos de cada vez. Era econômico com a aquarela, usava poucas manchas.

Num estado de concentração singular, porém relaxado, elaborava desenhos com aguçado poder de síntese com traços claros e definidos, sem gestos desperdiçados. Com uma medida precisa organizava imagens quase sempre narrativas, figurativas, simbólicas. Essas imagens eram muitas vezes acompanhadas de textos igualmente sintéticos com forte caráter poético. O texto em letra de forma, como a utilizada nos bilhetes, não necessariamente auxiliava na compreensão, outrossim ampliava os sentidos criando uma figura duplicada, resultado da soma do que se vê com aquilo que se lê. A combinação desses elementos originava desenhos alegóricos, ricos em metáforas com imagens cujos sentidos se alteravam dependendo do modo como fossem dispostas. Metáforas como a contida na imagem recorrente do vulcãozinho em erupção, evocando a potência de acontecimentos explosivos.

A escala, desenhos pequenos em papeis pequenos, é uma importante chave de configuração da sua natureza intimista. O observador é obrigada a se aproximar, em alguns casos, a se aproximar muito mesmo, para adentrar na narrativa das figuras que ali estão colocadas tal como uma caligrafia cumprindo sentidos próprios, ainda que, sempre dentro de um repertório específico e de um vocabulário de ordem pessoal. Uma vez que se esteja bem perto, então, será possível compartilhar confissões e sonhos e se sentir parte disso. Num excelente exemplo de quando o particular devidamente potencializado se torna universal, criando intensa e imediata identificação por parte de quem vem observar.

Curiosamente o universo das mentiras exercia sobre ele um estranho encanto. Era atraído pela velocidade inverossímil das conversas fabulosas e pelo caráter absurdo da invenção deliberada. Mentiras como essas que se diz por ai, a torto e a direito, que vão desde a mentirinha boba passando pela invenção total e indo até a mais pura falsidade. Sentia uma fascinação declarada por esse assunto, ora se preocupava, ora se divertia e falava bastante disso, o que por oposição, faz pensar na atitude tão sincera que assumia diante dos desenhos. Operava com liberdade e segurança um espaço onde reafirmava as verdades que experimentava separando-as de todo o resto. Numa atitude de proteção, os desenhos pareciam funcionar como uma espécie de filtro e eram para ele uma eficiente ferramenta de compreensão sobre as coisas do mundo. Dono de uma tranqüilidade relativa, filtrava dessa maneira, a realidade que tantas vezes nos surge turva e embaralhada, difícil de decifrar. No caso dos desejos, as imagens reafirmavam toda sorte de fantasias e sentimentos cuidadosamente anotados como numa mensagem amorosa, onde as palavras nem faltam nem sobram. Deste modo o desenho acontecia em sua vida como um instrumento de clarificação dos eventos, como sendo um reino seu, próprio, de certezas alcançadas, onde as verdades não oscilam permanecendo a salvo, guardadas, garantidas.

Publicado no catálogo da exposição Verdades e Mentiras, com as obras de Leonilson, na Galeria Superfície, São Paulo/SP, 2014

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